Antes de termos idade para decidir grande coisa, já sabemos que devemos querer ser bonitas. Ser amadas. Ter alguém. Ter uma casa. Ter sucesso. Ter filhos — ou, pelo menos, ter uma opinião bem fundamentada sobre não os ter.
Devemos querer viajar. Ter amigas. Gostar do nosso corpo. Ter uma carreira. Ter independência. Ter bom sexo. Ter orgasmos. Dormir oito horas. Beber água. Escolher a roupa. E os amantes.
E o nosso corpo? Queremos emagrecer porque queremos. Queremos umas mamas maiores. Ou mais pequenas. Queremos pintar o cabelo. E as unhas.
Eu sei, talvez queiramos mesmo.
Gostamos de pensar que, algures no meio de tudo isto, existe uma coisa pura chamada “aquilo que eu quero”.
Mas de onde veio? Será quee alguma de nós consegue chegar a qualquer uma dessas respostas sem ter passado décadas a ouvir o que devia fazer com a própria vida?
Não podemos pegar numa mulher que acabou de nascer, criá-la sem publicidade, sem religião, sem porno, sem filmes, sem mães, sem homens, sem outras mulheres, sem Instagram, sem elogios, sem insultos, sem ouvir se é bonita ou feia, e encontrá-la aos quarenta para perguntar: “Então? O que queres afinal?”
Não existe um nós antes deste mercado.
E isso torna tudo bastante mais incómodo.