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Porque é que um banho ao fim da tarde não parece o mesmo de manhã?

Porque é que um banho ao fim da tarde não parece o mesmo de manhã?

Dormimos oito horas. Acordamos com hálito, suor, remelas, cabelo oleoso, marcas da almofada na cara e aquele cheiro muito discreto de animal que passou a noite fechado num quarto.

Um banho de manhã é uma obrigação. Faz parte das coisas que temos de fazer antes de podermos ser vistas. Lavamos orelhas. Axilas. Genitais. Cu. Pés. Dentes. O cabelo, se for dia disso. As partes que achamos que podem cheirar. E lavamos depressa, porque há coisas para fazer.

Um banho ao fim da tarde já é outra coisa. Às seis da tarde já cumprimos o acordo. Não há uma boa razão para voltar para debaixo de água. Às vezes nem estamos sujas. Mas, quase sempre, estamos fartas.

Fartas da roupa que vestimos de manhã. Tiramos as calças. As cuecas. O soutien que deixa marcas vermelhas. Fartas de ter estado sentadas. Fartas de ouvir coisas.

Entramos. E durante quinze minutos voltamos a ser aquilo que somos quando ninguém está a ver. Não há autoestima. Não há beleza. Não há produtividade Há uma pessoa nua a coçar a cabeça, a tirar pele morta, a lavar buracos e a deixar a água cair nas costas porque sabe bem.

Ninguém nos pode pedir nada porque estamos nuas e molhadas. É uma das poucas desculpas que ainda respeitamos. “Estava no banho.” Ninguém pergunta porquê. Ninguém responde: outra vez?

É uma interrupção completamente privada. Por alguns minutos deixamos de apresentar o corpo, melhorar o corpo, vestir o corpo, perfumar o corpo, transportar o corpo de um lado para o outro.

O banho ao fim da tarde é uma desistência.