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Porque é que tocar no nosso próprio corpo não se parece nada com ser tocada por outra pessoa?

Porque é que tocar no nosso próprio corpo não se parece nada com ser tocada por outra pessoa?

Há uma crueldade nisto. Quando somos nós, sabemos tudo antes de acontecer. A mão vai mexer-se porque fomos nós que mandámos.

Passamos os dedos pelo braço. Pela barriga. Pela nuca. Podemos apertar, fazer festas, coçar, massajar. A pele sente. Mas sabe. Sabe que fomos nós.

Antes de a nossa mão chegar, já sabemos onde vai chegar. Antes de apertar, sabemos quanto vai apertar. Antes de parar, já decidimos parar. Conseguimos tocar o nosso corpo, mas não conseguimos surpreendê-lo. Com outra pessoa, não. Outra pessoa tem uma mão que não controlamos.

Não é preciso haver desejo sexual. Uma cabeleireira a lavar-nos a cabeça. Alguém a pôr-nos creme nas costas. Uma massagem. Uma mão pousada na nuca. Há qualquer coisa agradável em ficar quieta enquanto outra pessoa trata de uma parte do nosso corpo.

Quando somos nós a tocar-nos, continuamos a ser quem faz e quem recebe ao mesmo tempo. Não conseguimos abandonar nenhum dos lados. Com outra pessoa podemos.

Pode demorar mais um segundo. Pode mudar de sítio. Pode tocar com demasiada força. Pode quase não tocar. Pode parar quando queríamos que continuasse. Pode continuar quando achávamos que ia parar.

E o corpo fica à espera. É isto o mais difícil de reproduzir sozinhas: a espera.