Sabemos coisas sobre essa pessoa que provavelmente não era preciso saber.
Sabemos quanto tempo demora na casa de banho. Conhecemos os barulhos. O espirro do outro lado da casa. A maneira de subir as escadas. E nos dias em que está mais cansada, o ressonar.
Dividir uma casa é também perder, muito lentamente, a cerimónia.
Ao princípio fechamos a porta da casa de banho.
Depois deixamos aberta “só para dizer uma coisa”. Um dia estamos sentadas na sanita a discutir o que é preciso comprar no supermercado e já ninguém sabe exatamente quando é que isto passou a ser normal.
Há cuecas a secar. Cabelos no lavatório. Medicamentos na mesa. Pijamas pouco dignos. Conversas aos gritos de uma divisão para a outra.
“Foste tu que acabaste o papel higiénico?”
“Vais comer isto?”
“Porque é que isto está aqui?”
“Estás a usar a toalha grande?”
Poucas relações sobrevivem completamente intactas à descoberta de como o outro vive quando não está a ser observado. Mas essa é a intimidade de uma casa.
Não é jantar à luz das velas. Nem partilhar uma cama. Nem ter duas escovas de dentes no mesmo copo. É não ter vergonha na cara em relação ao outro.